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A reinvenção de uma empresa centenária

Converter uma fábrica de pasta papeleira para satisfazer um mercado exigente como o da pasta solúvel não foi tarefa fácil. Obrigou a um grande compromisso de todos os que trabalham na Caima para demonstrar a viabilidade de criar produtos de maior valor acrescentado, com os padrões de qualidade necessários, e para enfrentar os desafios colocados por um mercado novo e desconhecido.

A Caima é uma empresa centenária. Fundada em 1888, como The Timber Estate and Wood Pulp Company Ltd., foi uma das primeiras unidades fabris de produção de pasta de papel fora da Suécia. A primeira fábrica foi construída no concelho de Albergaria-a-Velha, nas margens do rio Caima. Uma empresa só consegue manter-se relevante ao longo de tantos anos se tiver uma enorme capacidade de adaptação à mudança, a novos mercados, a novas dinâmicas, e se possuir equipas de trabalhadores dedicados e uma equipa de gestão altamente qualificada.

Na origem, a Caima começou a produzir pasta de papel utilizando madeira de pinheiro. Nos anos 20 do século passado inovou, começando a utilizar a madeira de eucalipto na produção de pasta; os resultados foram de tal forma promissores que no final da década de 40 abandonou mesmo a utilização da madeira de pinheiro, passando a usar em exclusivo o eucalipto. Em 1960 construiu uma nova fábrica em Constância.

Em 2011 a fábrica voltou a ter um momento disruptivo. Decidiu deixar de produzir pasta papeleira e dedicar-se à produção de pasta solúvel, entrando num mercado exigente como o da indústria química.

Tudo começou em 2007 quando a empresa, numa lógica de criação de valor, decidiu avaliar diversas opções estratégicas. A possibilidade de produzir pasta solúvel foi uma das opções avaliadas. Iniciaram-se estudos técnicos para entender como é que, com a fábrica existente, se conseguia produzir pasta solúvel.

Nesse ano arrancou um estudo de viabilidade técnico-económica que proporcionou as linhas mestras para perceber como a Caima podia produzir pasta solúvel. O estudo ficou concluído em 2008. Nesse período, todos se lembram da conjuntura económica que se vivia no mundo e em Portugal. O grupo Altri tinha outros investimentos em curso e o esforço de investimento indicado no relatório entregue à Caima era elevado. Não era o momento certo. O estudo acabaria por ficar guardado durante algum tempo.

Passados dois anos, em 2010, a equipa de gestão da Caima voltou a debruçar-se sobre o estudo para perceber se era possível seguir as orientações do documento com a fábrica existente sem fazer investimentos relevantes. O relatório apontava o caminho e, ainda em 2010, deu-se início aos primeiros ensaios; começou-se com alterações ao cozimento e ajustes no branqueamento, essencialmente para testar a capacidade do processo para atingir os objectivos definidos.

Gualter Vasco, director fabril da Caima, realça que este trabalho foi desenvolvido sem recurso a apoios externos à Caima. “Todo este caminho foi feito com o esforço e o empenho das equipas e das pessoas que trabalham na fábrica. A competência e a dedicação dos nossos colaboradores foi determinante para o sucesso deste projecto.” Os testes iniciaram-se em 2010 e com a matéria produzida começaram a testar o mercado. A área comercial, liderada por Agostinho Dolores Ferreira, conseguiu encontrar mercado para a pasta produzida nesta primeira fase. “Foi um trabalho extraordinário, atendendo ao facto de a pasta produzida no início não cumprir rigorosamente a especificação típica da pasta solúvel”, conta Gualter Vasco. “Durante aquela fase do projecto resolvemos designar a pasta como semi-solúvel.”

Apesar de não ser o objectivo pretendido, a Caima soube aproveitar um período de elevada procura, devido à escassez de pasta solúvel no mercado.

Uma conjuntura que ajudou a abrir algumas portas à pasta da Caima. A escassez sentida no mercado fez com que o preço da tonelada de pasta solúvel aumentasse no mercado internacional. O produto fabricado pela Caima foi bem acolhido pelo mercado. Estava encontrado o conforto necessário. Este era o caminho certo.

Entretanto a empresa foi ajustando o processo até produzir pasta que no essencial cumpria a especificação da pasta solúvel. Este período de adaptação serviu também para encontrar alternativas aos clientes tradicionais da pasta de papel anteriormente produzida pela Caima. “O trabalho da direcção comercial foi exemplar e a transição decorreu sem sobressaltos; alguns dos antigos clientes são hoje servidos pela Celbi e pela Celtejo”, diz Gualter Vasco.

Gualter Vasco, director fabril da Caima
Gualter Vasco, director fabril da Caima

Os primeiros testes de produção de pasta solúvel na Caima foram desenvolvidos com o esforço, a dedicação e o empenho das equipas e das pessoas da Caima, sem apoios externos

Gualter Vasco, director fabril da Caima

Mudança

Chegou o momento de um novo ponto de inflexão na empresa. Em Agosto de 2012, a Caima deixou de fabricar pasta papeleira para produzir apenas pasta solúvel. Esta decisão foi tomada quando a fábrica mantinha todas as características de fábrica de pasta papeleira. O investimento feito até então resumia-se ao reforço da capacidade de produção de água desmineralizada, imprescindível na lavagem da pasta, para garantir os baixos teores de cálcio exigidos na pasta solúvel. “No total, até essa altura tínhamos investido pouco mais de 100 mil euros”, conta o director fabril da Caima.

De Agosto de 2012 em diante, a fábrica produziu pasta solúvel com uma instalação preparada para a produção de pasta papeleira, conduzindo o processo de forma diferente, nalguns aspectos menos eficiente, mas produzindo uma pasta que era bem recebida pelo mercado.

Confirmado o potencial e consolidada a opção, em 2013, o grupo Altri decidiu investir na fábrica. A cerimónia de assinatura do contrato de investimento coincidiu com a da comemoração dos 125 anos da Caima. Um total de 40 milhões de euros para adaptar a linha de produção a esta nova realidade. Desde a construção da fábrica que não havia um investimento desta importância. Foi uma espécie de renascimento, comentou-se.

Este investimento permitiu alterar o setup da fábrica para recuperar a capacidade de produção perdida ao passar do fabrico de pasta papeleira para pasta solúvel. Nesse processo de mudança, a empresa passou de uma produção de 115 mil toneladas/ano para 90 mil toneladas/ano. As alterações feitas e os novos equipamentos permitiram a produção de uma  pasta que cumpre com os padrões e as características que os clientes procuram. Permitiu ainda que a capacidade de produção voltasse às 115 mil toneladas anuais.

Os 40 milhões de euros foram utilizados para rebalancear diversas áreas da fábrica. Gualter Vasco explica que era necessário recuperar capacidade no cozimento. Para esse efeito instalaram um novo digestor. A capacidade da evaporação, parte fundamental de qualquer fábrica de pasta, era insuficiente e foi aumentada com a instalação de novos evaporadores. O projecto arrancou em 2014 com a entrada em funcionamento destas duas instalações e foi finalizado em Julho de 2015 com o arranque do novo branqueamento. Foram instalados dois estágios de branqueamento, parte crucial deste projecto. É onde se garantem os parâmetros mais importantes da pasta solúvel.

Separador

Todas as obras e as alterações foram realizadas com a fábrica em funcionamento e com um mínimo de perda

As alterações feitas na fábrica obrigaram também à reformulação da área da produção e à distribuição de energia da Caima. Foi necessário alterar a rede de vapor. A produção de pasta solúvel leva a um consumo de energia superior ao necessário para produzir pasta papeleira. A rede de distribuição de média tensão foi toda ela alterada. Aproveitou-se também este projecto para abandonar o uso do fuelóleo, migrando toda a instalação para o uso de gás natural. Ainda na área da energia, a “velhinha” caldeira auxiliar a fuelóleo foi substituída por uma nova caldeira a gás natural. O projecto de reconversão da fábrica encerrou-se em Maio de 2016 com a entrada em funcionamento de uma nova turbina de contrapressão que permitiu ajustar a geração de energia eléctrica aos consumos de vapor na fábrica.

A Caima é uma empresa energeticamente auto-suficiente. No site existem duas caldeiras de biomassa que permitem a valorização energética de mais de 250 mil toneladas por ano de biomassa florestal, contribuindo para a limpeza das matas e a consequente redução de risco de incêndio florestal na região. O excesso de energia produzida é injectado na rede eléctrica nacional.

Em termos práticos, geram-se mais de 170 GWh por ano de energia renovável. Cerca de 95 GWh são injectados na rede nacional. Mais do que o suficiente para satisfazer as necessidades de uma cidade com 150 mil habitantes com a dimensão de Coimbra.

Gualter Vasco não deixa de sublinhar que entre o arranque do projecto, em Novembro de 2013, e a sua conclusão, em Maio de 2016, “todas as obras e alterações foram realizadas com a fábrica em funcionamento e com um mínimo de perdas”. “Só quem conhece a nossa fábrica e tem a noção das limitações e espaço existentes consegue compreender a complexidade de uma operação de demolição de parte de um edifício com equipamentos em funcionamento no seu interior…” Um feito que só foi possível “com a colaboração e o empenho de uma equipa fantástica, muito dedicada e que sempre entendeu o significado e a importância desta mudança”.

Encontrar novas soluções

A capacidade de produção anual de 115 mil toneladas de pasta papeleira posicionavam a Caima como uma empresa de pequena dimensão concorrendo num mercado global onde as fábricas actuais produzem, em média, um milhão de toneladas/ano de pasta.

As unidades mais modernas chegam a produzir mais de dois milhões de toneladas/ano. Pela dimensão, essas empresas possuem uma competitividade com a qual a Caima não conseguia ombrear. Era difícil manter a empresa relevante neste mercado. Era uma questão de tempo até esta realidade se reflectir na viabilidade e na sustentabilidade do negócio. Tornava-se necessário diversificar o mercado e a pasta solúvel apresentava-se como uma opção interessante.

“A Caima sempre procurou encontrar nichos de mercado nos quais pudesse comercializar o seu produto com valor acrescentado, para clientes muito específicos”, adianta Gualter Vasco. A produção da fábrica destina-se maioritariamente ao mercado asiático – mais de 90% da produção – e serve para produzir rayon viscose que é utilizada pela indústria têxtil, ou em produtos mais vocacionados para especialidades químicas, usados em sectores tão diversos como o alimentar ou a cosmética. Produz 55 mil toneladas anuais de linho-sulfonato, um produto usado na indústria da construção, como aditivo do betão, melhorando as suas características e permitindo a sua aplicação em condições mais exigentes.

Da biorrefineria de madeira de eucalipto que é actualmente a Caima, podem ainda obter-se químicos como o bioetanol, ácido acético, furfural, adoçantes naturais (xilitol, xiloses), proteína, vanilina ou linho-sulfonato, destinados à indústria química. Estes produtos permitem produzir seda artificial, transparentes, filmes (LCD), película fotográfica, lacas, vernizes, filtros de automóvel, filtros de cigarros, adesivos ou emulsionantes para a indústria alimentar. A transformação da capacidade produtiva da Caima permitiu diversificar os produtos finais, os clientes e posicionar a empresa num mercado com futuro.

Laboratório ganha vida nova


Na produção da pasta papeleira o laboratório da Caima focava-se na verificação e no controlo dos parâmetros exigidos para satisfazer as necessidades da indústria papeleira. Agora, tendo a indústria química como principal mercado, o laboratório desempenha um papel determinante. “É uma pedra angular nesta nova realidade que é a produção da pasta solúvel”, diz Gualter Vasco. A Caima investiu em equipamento e em recursos humanos “É uma área em que se investiu muito no reforço das competências”, “era impossível a Caima estar no mercado da pasta solúvel de uma forma sólida sem o know-how existente no nosso laboratório”, conclui o gestor da fábrica.