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Susana Pacheco, Jorge Custódio e Sofia Costa Macedo, são os arqueólogos industriais que estudaram a história dos 130 anos da Caima

Guardiões da memória industrial

A missão dos arqueólogos industriais é conhecer, proteger, salvaguardar, conservar e a valorizar o património industrial português

O estudo do património industrial é múltiplo. A disciplina Arqueologia Industrial surgiu em 1955 no Reino Unido com o objectivo de estudar os fenómenos da industrialização que não são apenas industriais, mas também os fenómenos ligados aos transportes, organização social, portos, actividade da mecanização da indústria dos campos (agricultura) e até assuntos directamente relacionados com a importância das matérias­‑primas que eram necessárias para a indústria.

Estes trabalhos são de extrema importância porque chamam a atenção para a salvaguarda, conservação, valorização do património que a indústria e a sociedade industrial criaram. Existe ainda todo um conjunto de bens ligados às técnicas, que se chama património técnico, que também merece ser preservado porque está relacionado com as profissões mais antigas da indústria como oficinas, manufacturas, engenhos, energias, máquinas e sistemas técnicos.

Em Portugal, a Arqueologia Industrial começou no final dos anos 70, princípio dos anos 80. Teve como grande momento de arranque a exposição que se fez na Central Tejo (1985), dedicada especificamente à descoberta da arqueologia industrial e sua salvagurada. A sua abertura como museu deu-se em 1990 e é um emblema desta disciplina científica porque aí se instalou o que hoje é conhecido como o Museu da Electricidade e uma equipa que estuda estas áreas e se especializou no âmbito da história e património electricidade. Há outros museus industriais de grande qualidade, como o de Lanifícios na Covilhã, Museu do Papel, etc. ou locais de visita como a Real Fábrica do Gelo da Serra de Montejunto, que poucas pessoas visitam, apesar de ter a classificação de monumento nacional.

Estes exemplos são uma pequena parcela do muito bom trabalho que já se desenvolveu em Portugal no âmbito de preservar o legado industrial do País e os efeitos da sociedade industrializada. “Existem cerca de 100 museus industriais e mineiros no País.” Este número é apresentado pelo professor e investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, Jorge Custódio. É uma das pessoas que dedicou mais tempo a estudar e a promover a Arqueologia Industrial em Portugal.

É responsável por liderar a equipa que estuda e analisa os 130 anos da Caima, desde a sua criação até aos dias de hoje, com as implicações e os progressos tecnológicos que marcaram o seu desenvolvimento assim como o impacto que todos estes processos evolutivos tiveram na vida de Albergaria-a-Velha na sua génese e mais tarde, com a deslocalização da fábrica, em Constância.

O nosso interlocutor coordena e assume a principal redacção de um livro sobre a história da Caima, referindo que procura não ser uma investigação pautada pelo conceito de investigação histórica apenas. “É uma investigação que abarca outro tipo de fontes, acrescentando às fontes documentais, geralmente as mais utilizadas pelos historiadores, outras proveniências de informação como fotografias, documentação cartográfica, entre outros materiais, e o estudo das próprias fábricas.”

A equipa de investigadores é ainda composta por Sofia Costa Macedo, docente de Património Cultural no ISCTE, investigadora associada no CIES – Centro de Investigação, de Estudos de Sociologia e membro da direcção da APAI – Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial e por Susana Pacheco, mestre em Arqueologia Industrial que colabora com a Fundação Robinson, em Portalegre, ambas investigadoras do projecto.

Este projecto da Caima reúne três gerações diferentes de investigadores que se dedicam à preservação do património industrial. São uma espécie de guardiões da memória industrial de um país cuja opinião pública continua a pensar que não há um tecido industrial activo e disseminado pelo território nacional.