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Minimizar comportamentos de risco em fábrica

O ano passado foi o melhor de sempre ao nível da segurança na Celbi. Uma atitude de rigor para com a segurança permitiu evitar que os colaboradores se magoassem. Para chegar a este estádio de evolução foi necessário desenvolver um projecto interno para mudar comportamentos de risco.

Entre 2007 e 2010 foi concretizado na Celbi um investimento superior a 320 milhões de euros, que incluiu a remodelação da linha de produção de pasta e montagem de novas instalações na área de recuperação de químicos e produção de energia. A capacidade de produção da empresa duplicou. Passou a produzir mais de 700 mil toneladas/ano.

Alcançado este nível de eficiência, graças à implementação de novos equipamentos e infra-estrutura, o passo seguinte foi ajustar os recursos humanos à nova realidade. Uma nova  fábrica, com maior capacidade de produção, assente em processos mais exigentes. Conseguida a estabilização desejada, todos os trabalhadores e colaboradores da empresa – operários, técnicos e engenheiros – tiveram de adaptar os hard skills à nova realidade.

A formação de conhecimentos técnicos foi extremamente importante mas esta aprendizagem não era suficiente, era necessário adquirir novos soft skills, competências e comportamentos relacionados com os diferentes perfis profissionais para operar no novo ambiente produtivo.

A segurança dos colaboradores da organização foi definida como uma prioridade. O ponto de partida estava longe de ser um cenário frágil, muito pelo contrário. A organização encontrava-se num estado maduro e estava incluída a definição do objectivo zero acidentes desde 2007. As peças-base de um sistema de segurança estavam consolidadas, incluindo a certificação do próprio sistema de gestão da segurança desde 2005. Apesar de a Celbi apresentar índices de sinistralidade bastante bons, quando comparados com as referênciacias preconizadas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), pretendia-se ir mais além. A segurança deve evoluir tanto como a produtividade ou a qualidade do produto. Uma atitude de rigor para com a segurança deverá ter efeitos positivos na produtividade (exemplo de caso: Alcoa. Paul O’Neill. How Changing One Habit Helped Quintuple Alcoa’s Income). A melhoria da segurança pode ser feita em termos de Processos, Meios e Pessoas. A análise das causas de acidentes concluiu que o último factor era o que se apresentava mais distante do desempenho esperado.

A Celbi continuaria a trabalhar Meios e Processos (sempre). Era o momento de investir na evolução do factor Pessoas. O parceiro seleccionado, em função da metodologia e experiência no sector, para avançar neste campo foi a LTM Consultoria, Lda., proprietária da marca Comportamentos Seguros®.

Projecto Comportamentos Seguros

Quem nunca desceu umas escadas de forma pouco cuidadosa, sem prestar atenção ao facto de terem ou não banda antiderrapante? Ignoramos sinais de segurança. Substituímos uma lâmpada em casa com números de equilibrismo em cima de uma, ou duas, cadeiras. Temos estes comportamentos porque nos habituámos a arriscar. Esses comportamentos de risco existem porque fazer bem, por vezes, dá mais trabalho, ou por ter uma atitude de laxismo, “não estou para me chatear!”. Quando se verifica este género de atitudes numa fábrica, o profissionalismo é posto em causa.

“O objectivo do projecto Comportamentos Seguros é único e simples: evitar que as pessoas se magoem.” Pretende transmitir um conjunto de mecanismos e ferramentas que conduzam à adopção de comportamentos que evitem acidentes. A metodologia seguida neste projecto foi segmentada em três etapas e desenhada para trabalhar quatro eixos de mudança comportamental (ver caixa Eixos de Mudança Comportamental).

Avaliação de necessidades

Uma cultura de segurança não pode ser imposta. É necessário conhecer o estado actual antes de conquistar a sua evolução. A primeira etapa do projecto Comportamentos Seguros foi a LTM Consultoria conhecer melhor a Celbi para poder identificar oportunidades de melhoria e recolher elementos que alimentassem as etapas seguintes do projecto de uma forma genuína e fundamentada.

A LTM Consultoria executou uma análise estatística a um período de três anos (2011-2013), realizou visitas à fábrica e manteve reuniões com todas as direcções representativas, com base no critério do número de colaboradores.

Destas interacções foi possível identificar três grandes conclusões. A primeira, que a Celbi apresentava maior incidência de acidentes em horários coincidentes com reuniões de gestão, evidenciando que a ausência de controlo influenciava a sinistralidade.

A segunda grande conclusão foi que os índices de frequência de acidentes eram manifestamente diferentes entre departamentos, traduzindo realidades distintas dentro de uma mesma organização. A terceira e última conclusão foi constatar que o nível de gravidade dos acidentes era superior nas zonas do corpo menos protegidas por Equipamentos de Protecção Individual (EPI).

Formação

Uma vez identificadas as necessidades de mudança de comportamento avançou-se para a segunda etapa do projecto, a formação de curta duração (quatro horas). Foi ministrada a todos os colaboradores da Celbi, num total de 181 formandos presentes. A opção foi iniciar a segunda fase pelos níveis hierárquicos superiores com a sua intervenção na apresentação do projecto aos funcionários antes que estes frequentassem a formação.

Nesta fase pretendeu-se levar cada colaborador a atingir um ponto de predisposição para aceitar a mudança e dar a conhecer técnicas individuais básicas para reduzir o risco de ter um acidente. Foi comunicado o comportamento que deveria ser alterado e de que forma cada indivíduo o poderia fazer.

A formação foi construída com base no método interrogativo, tentando conduzir os formandos à obtenção de conclusões (sem estas serem apresentadas pelo formador).

“Como esperado, foram pontualmente vividos momentos de tensão com os formandos durante a formação. Este projecto não tinha por objectivo satisfazer formandos mas sim mudar comportamentos”, explica a empresa responsável pelo projecto Comportamentos Seguros, acrescentando que “foram utilizadas todas as ferramentas possíveis para atingir esse fim, sempre de uma forma assertiva, mas sem receio de conflito”. A etapa da preparação muniu os formadores de argumentos adequados para desmontar posições de desresponsabilização por parte de alguns (poucos) formandos.

A formação apresentou resultados imediatos, visíveis pela redução mensal de acidentes no arranque do ano 2015, embora não de forma sustentada. Importa referir que essa situação era esperada nesta fase do projecto. Era necessário enraizar comportamentos. Torná-los hábitos! Foi então que se entrou na etapa III do projecto – Iniciativas. Foi a etapa que levou à criação e à manutenção dos resultados do projecto a longo prazo. O clique obtido na etapa anterior não foi suficiente para adquirir um “hábito”. Esta foi uma etapa menos intensa em termos de consumo de cargas internas, mas mais em segurança ou realização de “cafés em segurança” para acompanhamento da formação.

Sofia Jorge, Gestora do departamento de Controlo Técnico e Sistemas de Gestão da Celbi
Sofia Jorge, Gestora do departamento de Controlo Técnico e Sistemas de Gestão da Celbi

Separador

O objectivo do projecto Comportamentos Seguros é único e simples: evitar que as pessoas se magoem

As iniciativas estruturadas implementadas na Celbi, garantiram o envolvimento de todos os níveis hierárquicos. Os mais elevados da organização implementaram os Safety Walks. Os intermédios implementaram o Minuto de Segurança, enquanto os níveis operacionais, em sistema rotativo, assumiram-se como Coordenadores Locais de Segurança, garantindo um monitor preventivo de segurança.

Uma preocupação sistemática da metodologia é garantir que tudo o que é feito tem visibilidade no “chão da fábrica”. No caso da Celbi, foi mapeado em detalhe a relação entre as iniciativas, garantindo ao longo de toda a etapa III a existência de um foco no chão da fábrica e a antecipação de problemas de implementação, permitindo a sua mitigação prévia.

“Quando se atingir um nível elevado de segurança, deixa de ser adequado monitorizar a segurança com base apenas nos acidentes ocorridos. É um indicador que tende a ficar vazio”, explica a LTM Consultoria.

A etapa III do projecto Comportamentos Seguros foi concluída com a criação de um monitor de quantidade e qualidade das iniciativas estruturadas, pretendendo que esse monitor constitua um controlo preventivo da segurança.

Eixos de mudança comportamental


A metodologia Comportamentos Seguros® trabalha quatro factores de mudança comportamental, visando a melhoria da segurança nas empresas pela evolução do factor Pessoas:

  1. Explicar o processo de mudança – Através da formação em comportamentos seguros é comunicada a todos os colaboradores a razão pela qual o projecto é implementado e o que se pretende mudar ao nível comportamental.
  2. Desenvolvimento de competências – Através da formação de comportamentos seguros são transmitidas às pessoas as ferramentas que podem utilizar no dia-a-dia e como fazê-lo. Como se avaliam riscos? Qual é a utilidade de uma checklist?
  3. Reforço através de mecanismos formais – As estruturas, os sistemas e os processos devem suportar (e pressionar) os esforços dos colaboradores na mudança comportamental.
  4. Modelos e liderança – Não basta aos líderes definir regras. Devem exemplificar a sua concretização. Ser consequentes. Walk the talk.

O que se alcançou?


A melhoria foi conseguida sem recurso a penalizações

  • Envolvimento de todos os níveis hierárquicos em tarefas associadas à prevenção de acidentes;
  • Criação de canais de comunicação efectiva sobre segurança, através de iniciativas;
  • Implementação de um mapa de bordo com indicadores preventivos de segurança (que monitorizam o sistema preventivo);
  • A segurança evoluiu positivamente, no mesmo sentido que a produtividade da empresa.

(Post Scriptum: a tendência de diminuição da sinistralidade continuou após o fim de monitorização em Maio de 2016. O ano 2016 foi o melhor de sempre ao nível da segurança na Celbi.)

Em Destaque

40%

Redução de acidentes

30%

redução de acidentes com baixa

50%

redução de dias perdidos por acidente

(Dados de Junho de 2014 a Maio de 2016)