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O futuro depende da gestão activa da floresta

Fornecer o maior número de metros cúbicos de matéria-prima, respeitando todas as regras legais e ambientais, por muito exigentes que sejam, a um custo competitivo. Para o fazer, a empresa tem de melhorar e aumentar a gestão da floresta e aumentar a eficiência dos processos na silvicultura

“Mais madeira.” A frase foi repetida inúmeras vezes por Groucho Marx enquanto dirigia a locomotiva movida a carvão. O filme de 1940 Os Irmãos Marx no Faroeste mostra como Harpo e Chico destroem todas as carruagens do comboio, deixando apenas o esqueleto metálico. Toda a madeira foi consumida.

A indústria de pasta de papel precisa de produzir mais madeira mas, tal como satirizado por este filme, a matéria-prima não surge ao virar da esquina, é um bem escasso, que no caso da nossa indústria precisa de ser produzido e gerido de forma sustentável, a um preço competitivo, cumprindo todos os requisitos legais e ambientais. Esta é a missão da Altriflorestal, uma empresa que gere 82 mil hectares de floresta, do Algarve até ao Minho. Uma área segmentada em quatro regiões: Norte, Médio Tejo, Oeste e Beira Interior.

Para cumprir esta missão, Miguel Silveira, administrador da Altriflorestal, explica os quatro grandes desígnios estratégicos da empresa: melhorar a gestão florestal; aumentar a área de floresta gerida; introduzir mais eficiência nas operações e nos processos; e apostar de forma inequívoca na formação e na passagem de conhecimento entre stakeholders.

Miguel Silveira, administrador da Altriflorestal
Miguel Silveira, administrador da Altriflorestal

A restrição legal da utilização de eucaliptos em novas áreas de floresta traz um primeiro grande desafio à gestão florestal. O administrador explica que quando se pretende aumentar a produtividade nas fábricas da Altri, a lógica é “produzir a maior quantidade de pasta ao menor custo” de forma sustentável para a floresta. No caso da Altriflorestal, a fábrica é a floresta e a produção são metros cúbicos por unidade física de área. “Como essa unidade física está limitada em termos legais, não é possível crescer, há uma grande pressão para aumentar a produtividade na área (de produção) existente.”

Essa melhoria da área de produção começa com a escolha das plantas. É feita uma selecção nos Viveiros do Furadouro, que há 60 anos trabalham num programa de melhoramento genético de plantas utilizando as mais avançadas tecnologias e conhecimentos da área. Os viveiros são propriedade da Altriflorestal e fazem investigação e desenvolvimento de plantas com maior capacidade de adaptação aos tipos de solos nos quais vão ser utilizadas. O objectivo? Tirar o máximo partido possível do factor genético da planta.

Viveiros do Furadouro
Viveiros do Furadouro

A utilização de plantas geneticamente melhoradas para produzir pasta de papel é importante, mas não é suficiente. “Se plantar árvores com o melhor material genético em solos menos férteis, não serão alcançados grandes resultados.” É fácil de entender. Para obter bons resultados estas iniciativas devem ser “acompanhadas de boas práticas de silvicultura, que incluem por exemplo as adubações, de forma a garantir as melhores condições de desenvolvimento da planta”. Com o intuito aprofundar este tema, há quatro anos, a Altriflorestal iniciou um programa de fertilização com ensaios em várias regiões do País, para adaptar uma fertilização específica a cada local. Neste momento, estão a caminhar para uma silvicultura de precisão, melhorando a eficiência dos procedimentos, gastando o adubo de forma mais eficiente, garantindo que o resultado potencia ao máximo possível a produtividade.

Minimizar a quebra de produção de matéria-prima

Outro aspecto trabalhado para reduzir as quebras de produção é o combate a pragas e doenças tais como o gorgulho­‑do­‑eucalipto, uma praga que afecta o eucalipto e que se reflecte na produtividade de algumas zonas do País. “A nossa investigação encontra-se a desenvolver métodos de combate eficazes à praga conciliando-os com o desenvolvimento da parte genética das plantas. Tudo é feito com um foco muito grande na produtividade”, conclui Miguel Silveira.

Além da ameaça do gorgulho-do-eucalipto existem outros aspectos que causam perdas de produção, como os incêndios ou a seca. Nunca é demais relembrar que a indústria de pasta de papel não utiliza madeira queimada. As fábricas não querem correr o risco de introduzir carvão na linha de produção.

Para evitar perder matéria-prima, o combate aos incêndios é feito inicialmente com um dispositivo de prevenção da Altriflorestal que todos os anos entrevem no controlo de vegetação numa área de floresta compreendida entre 15 mil a 20 mil hectares. Esse trabalho inclui a criação ou a limpeza de caminhos, aceiros e pontos de água.

A fábrica da Altriflorestal é a floresta
A fábrica da Altriflorestal é a floresta

A esta realidade acresce a colaboração activa na época dos incêndios de grande parte da estrutura de colaboradores da Altriflorestal disseminada pelo território nacional com as equipas da Afocelca (ACE com a The Navigator Company), que combate os incêndios.

A matéria-prima utilizada pela Altri resulta da área de produção gerida pela Altriflorestal e da compra de madeira a terceiros. Os incêndios são sempre um problema para a nossa indústria. Caso a área ardida fosse replantada, só começava a fornecer madeira após 11 a 12 anos. Olhando para a curva de produção anual de madeira, esta vai apresentar uma quebra nos próximos anos. Miguel Silveira diz que daqui a dois ou três anos este cenário pode ser preocupante para a indústria de pasta de papel que utiliza eucalipto, apesar de não ter sido a área que ardeu mais.

As pessoas nem sempre percebem, mas os incêndios são a pior coisa que pode acontecer à indústria do eucalipto

Mais floresta com gestão activa

Uma forma de minimizar o impacto e a propensão de incêndios é a existência de mais áreas de eucaliptal geridas. O ano passado o administrador acompanhou algumas grandes acções de combate aos incêndios, tendo estado presente no apoio aos colaboradores da Altriflorestal que estão dia e noite a desenvolver um trabalho extraordinário juntamente com a Afocelca. Um dos aspectos mais notórios nessas situações foi a existência de muita área sem gestão fora das áreas geridas pela Altriflorestal. De acordo com o Administrador, quando chega um incêndio a uma zona sem gestão é terrível combatê‑lo. “Do que vi e falei com as pessoas, afirmavam inequivocamente que preferem combater um incêndio dentro das áreas geridas pelas empresas de celulose porque tem menos intensidade.” Miguel Silveira justifica a sua afirmação. “Tendo a vegetação controlada; tem estradas e caminhos em bom estado. O combate é bastante mais simples e facilita toda a operação. Conhecemos os caminhos, temos pontos de água para reabastecer, locais para onde se pode sair, se for o caso, sabemos qual é a estratégia de saída do local, está tudo programado antes de entrar no combate ao incêndio nessa área gerida”, explica o nosso interlocutor, sublinhando que se aumentasse a área de floresta gerida existente em Portugal, seja pelas empresas de celulose seja pelos proprietários dos terrenos, tudo seria mais fácil.

Constata também que muitos dos proprietários florestais não desenvolvem as tarefas de gestão provavelmente pela falta de dimensão dos seus terrenos. Considera que uma alternativa para ultrapassar esta dificuldade poderia ser ampliar ou promover a área com gestão activa das empresas de celulose, incluindo nestas as áreas de pequenos proprietários.

O projecto Melhor Eucalipto, desenvolvido em parceria com a Celpa, visa ajudar/demonstrar aos proprietários que é positivo para todos gerir o eucaliptal e a floresta. É positivo em termos ambientais, na protecção de incêndios e na produtividade. “Só assim se consegue ter o equilíbrio entre a parte económica, social e ambiental. Este projecto está focado nestes três pilares, que são indissociáveis”, diz Miguel Silveira.

Separador

A ideia é mostrar que é possível aumentar as suas receitas e reduzir o risco de perda do investimento com os incêndios. Uma estimativa conservadora demonstra que é possível aumentar a produtividade dessa área em cerca de 10 a 15%.

A gestão da floresta implica o controlo activo de amplas áreas. A biomassa florestal residual proveniente da floresta é utilizada para produzir energia nas centrais do grupo. Assim, a Altriflorestal proporciona aos proprietários de terrenos um escoamento da biomassa resultante das suas acções silvícolas, reduzindo desta forma a carga de combustível e consequentemente o risco de incêndio. Recentemente, a Altriflorestal celebrou um protocolo de colaboração com uma Câmara Municipal e Associação de Produtores Florestais, com o intuito de criar parques de recepção de biomassa florestal no centro do país, facilitando assim a recolha de biomassa proveniente da floresta. Este modelo será também implantado em outras regiões do país, em locais onde a carga de combustível e a logística o recomendem.

Aumentar a eficiência das operações e dos processos

Como em tudo na vida, há quase sempre margem para melhorar e a Altriflorestal tem sempre como meta aumentar a eficiências das suas operações e processos.

Assim, e à semelhança de outras empresas do sector, a Altriflorestal subcontrata todos os serviços relacionados com a silvicultura. Não existem equipas próprias. Não possui máquinas. Os únicos recursos detidos pela empresa são os chefes de equipa que gerem as operações no terreno e que monitorizam os serviços terceirizados e a sua eficiência.

“Quando os prestadores de serviços começam a trabalhar para nós, damos formação e orientações de segurança para começar a criar eficiência”, diz Miguel Silveira. Para alcançar esse objectivo a empresa possui uma série de mecanismos que se materializam em projectos. Essas iniciativas permitem identificar os desafios e as melhorias que precisam de ser implementadas em cada área de actuação. Na segurança de trabalho desenvolveram uma acção que consistiu na adaptação de uma carrinha a uma sala de formação móvel, que se desloca para os locais de trabalho onde é dada formação sobre as medidas de segurança a ser adoptadas na frente de obra. Esta acção permitiu reduzir os acidentes laborais para valores inferiores à média nacional de acidentes relacionados com a actividade florestal.

    Outro ponto de eficiência na mira da Altriflorestal são as plantações, que neste momento são feitas manualmente. O desafio futuro é perceber se vão existir pessoas para realizar este trabalho daqui a 10, 20 ou 30 anos. Para solucionar tal situação, a empresa está a trabalhar com uma empresa finlandesa no desenvolvimento de uma máquina para fazer este trabalho de forma automática. Esse automatismo fará a plantação, a rega, aplicará o adubo e gel ao mesmo tempo.

    Para melhorar a eficiência do processo de remoção dos cepos de eucalipto, a empresa desenvolveu, em parceira como uma metalomecânica portuguesa, uma alfaia que arranca os cepos proporcionando uma remoção mais limpa da matéria ao remover as pedras e tirando a terra. O resultado final foi positivo.

    Na grande fábrica de matéria-prima que é a floresta, a eficiência e a produtividade estão ligadas aos custos de exploração, os quais, por sua vez, estão relacionados com os metros cúbicos de matéria existentes por hectare. Para melhor controlar este processo, a empresa decidiu introduzir um software de gestão florestal para gerir toda a actividade de forma transversal, dos viveiros até à contabilidade.

    A aplicação foi desenvolvida e parametrizada para responder às necessidades específicas da Altriflorestal. A escolha deste software recaiu numa empresa brasileira que trabalha com as grandes celuloses no seu país. Este software fornece dados para ajudar à tomada de decisão. “Quando se deve adubar, plantar, que espécie é a mais aconselhável. Tudo está disponível no sistema que é transversal a toda a empresa”, diz o Administrador, sublinhando que fica tudo registado e discriminado no sistema para que ajude a tomar decisões no futuro. O que se deve fazer e quando se pode fazer. Se adubar e não chover, o adubo é mal utilizado e não serve de nada, se limpar o mato na altura errada do ano, etc. Tudo é importante para que o efeito na produtividade seja o melhor possível. Só se consegue esta melhoria quando se controla e se analisa toda a informação de gestão.

    Quem trabalha nas fábricas sabe que a produção não pode parar. Uma paragem não programada, mesmo que seja de um dia ou um fim-de-semana, é um prejuízo muito elevado. Na fábrica da Altriflorestal há um período médio de seis meses entre o corte da madeira e a replantação. Essa lacuna temporal corresponde a meio ano de falta de produção florestal de um hectare. A iniciativa que vai ser introduzida é para encurtar este tempo de espera para metade, três meses de pousio da terra. “Se encurtarmos este período, vamos conseguir ter mais produção do que antes”, diz Miguel Silveira.

    Por último, no capítulo do aumento da eficiência das operações e dos processos, a Altriflorestal possui um protocolo com o Instituto Superior de Agronomia (ISA) para criar think tanks que analisem os problemas existentes na silvicultura para a produção de pasta de papel e as soluções que podem ser encontradas e desenvolvidas dentro da universidade. O protocolo realizado com o ISA inclui ainda a capacidade de receber estagiários, mestrandos ou doutorandos para trabalhar com a Altriflorestal.

    Formação e passagem do conhecimento

    A importância da gestão do conhecimento na empresa é um elemento fundamental para o sucesso e a sustentabilidade temporal das operações. A lógica por detrás deste quarto e último pilar da Altriflorestal é simples de entender, mas extremamente complexo de pôr em prática. Quem leu o artigo, percebe a quantidade de informação que é recolhida pelos colaboradores da Altriflorestal nas diferentes operações que possuem por todo o território nacional. Está a ser feito um grande esforço para melhorar a informação de gestão, acompanhando a evolução da silvicultura ao longo de todo o processo produtivo. E o que acontece à informação e ao conhecimento que os colaboradores que trabalham em determinadas zonas desenvolveram com o passar do tempo? Como se consegue transformar o know-how adquirido em conhecimento estruturado e disponibilizado como vantagem competitiva a todos os colaboradores da Altriflorestal?

    Miguel Silveira, administrador da Altriflorestal
    Miguel Silveira, administrador da Altriflorestal

    Miguel Silveira reconhece que muitos dos colaboradores passam o dia no terreno e é importante potenciar a partilha do conhecimento com os outros colaboradores, mesmo estando em espaços físicos diferentes. Um dos objectivos transversais à empresa foi assim criar condições para que houvesse maior partilha deste conhecimento. Reconhece que este conhecimento adquirido pelos colaboradores, que poderemos denominar por conhecimento empírico, é um conhecimento que tem um grande valor para a empresa. Como exemplo, o nosso interlocutor refere o caso dos encarregados florestais e do conhecimento que possuem das áreas e da reacção das árvores a determinados tratamentos.

    “Ainda não atingimos o objectivo pretendido”, diz o nosso interlocutor. Gostava de ter uma base de dados na Internet ou uma plataforma colaborativa que permitisse, sempre que um colaborador colocasse uma dúvida sobre um tema, por exemplo sobre a adubação, pudesse procurar na base de dados e ter acesso a toda a informação de outros colaboradores que já passaram por esse processo criaram e disponibilizaram.

    Este é um projecto da maior importância para a valorização de todos, é uma mais-valia para a empresa e para os colaboradores, que devem beneficiar da informação de outro colega. “Informação é poder” e a ideia de que a partilha de informação não retira importância ao seu possuidor, antes pelo contrário, tem de ser um objectivo na Altriflorestal. Há que contrariar a falta de partilha de conhecimento, diz Miguel Silveira, acrescentando que “o melhor activo que temos são os nossos colaboradores e a sua evolução e excelência é a nossa”.


    Grandes incêndios em floresta sem eucalipto


    Em meados de Julho, o Reino Unido e a Suécia eram os países da União Europeia com a maior área ardida de floresta. A vaga de calor que se fez sentir este Verão no Norte da Europa originou um conjunto de incêndios em países que não estão habituados a lidar com um elevado número de ignições. A Suécia teve temperaturas de 33ºC, anómalas para aquelas latitudes, e registou mais de 50 incêndios. Todos os corpos de bombeiros do país foram mobilizados, incluindo os que estavam de férias, e mais de 500 militares.

    A multiplicação de incêndios levou a Suécia a esgotar os meios à sua disposição para enfrentar a vaga de incêndios, tendo pedido ajuda à União Europeia, através do Mecanismo Europeu de Protecção Civil.

    Algumas das áreas consumidas pelo fogo foram próximas do Círculo Polar Árctico. Importa sublinhar que a Suécia não possui eucalipto na sua floresta. Situação idêntica é a da Grécia. Um país que não tem eucalipto na sua floresta e que este Verão sofreu incêndios florestais de grande dimensão, que afectaram localidades e aldeias, tendo devastado as regiões de Mati e Rafina, causando 93 mortes.

    Na Califórnia (EUA), houve vários incêndios de grandes proporções. Um deles, o maior de que há registo na região, ardeu de forma descontrolada por um período superior a três semanas, naquela que é considerada uma das mais prolongadas e destrutivas vagas de incêndios da história deste estado americano. Um cenário de devastação que também acontece em território no qual o eucalipto não está presente.