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Reconhecer a relevância da Caima na história de Portugal

A historiografia portuguesa desprezou a análise do papel da Caima na economia nacional. O trabalho desenvolvido outorga à Caima o papel de destaque que merece na história de Portugal

A possibilidade de estudar uma empresa que esteve presente em todos os momentos mais significativos da transformação da sociedade portuguesa desde o fim do século XIX é de uma grande relevância. A Caima começou a existir durante o reinado de D. Luís, cresceu durante a Primeira República, esteve sempre activa na I Guerra Mundial, na ditadura militar, na II Guerra Mundial, no 25 de Abril de 1974, na integração de Portugal na Comunidade Económica Europeia (CEE) – agora União Europeia –, na adopção da moeda única e no fim do escudo.

A fundação da Caima data de 17 de Maio de 1888. A Fábrica de Albergaria está construída em meados de 1891. Para construir uma fábrica para produzir pasta de papel, por processo químico inovador, no interior de Portugal, nos finais do século XIX, foi necessário trazer o equipamento completo e uma equipa da Alemanha para montar a fábrica. “Imagine o que era constituir uma fábrica em Portugal, têxtil ou metalomecânica, para as quais a formação técnica era baixa nessa época e não existia mão-de-obra especializada. Quanto mais não seria quando esta unidade era uma indústria química à base de bissulfito de cálcio.”, diz Jorge Custódio, arqueólogo industrial e investigador do Instituto de História Contemporânea e responsável pela coordenação do trabalho de investigação da Caima.

“Ao fazer a história desta empresa, estamos a falar da história da própria sociedade da região e do País”, afirma Sofia Costa Macedo, docente de Património Cultural no ISCTE, membro da direcção da APAI – Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial um dos três membros que integram a equipa de investigação que desenvolveu a história da Caima, a primeira fábrica de produção de pasta química em Portugal.

Gualter Vasco, director fabril da Caima (à esquerda) com Luis Patornilho, responsável de recursos humanos da Caima (à direita), e a equipa de arqueólogos industriais
Gualter Vasco, director fabril da Caima (à esquerda) com Luis Patornilho, responsável de recursos humanos da Caima (à direita), e a equipa de arqueólogos industriais

O ponto de partida da investigação foi uma arca existente na empresa que tinha cerca de 150 documentos sobre a The Caima Timber Estate & Wood Pulp Company, Limited A mestre em Arqueologia Industrial e investigadora no projecto da Caima, Susana Pacheco, partilha que para desenvolver o trabalho consultaram vários arquivos diferentes. Os existentes na fábrica de Constância e na fábrica de Albergaria – de que grande parte se encontra no arquivo municipal de Albergaria-a-Velha –, assim como arquivos estatais, municipais e distritais, entre os quais os do antigo Ministério das Obras Públicas e do Ministério da Economia, nos quais encontraram bastante informação. Recorreram também a arquivos estrangeiros, nomeadamente ao National Archives, em Inglaterra. Foi em Londres que encontraram os estatutos originais da criação da The Caima Timber Estate & Wood Pulp Company, Limited, a informação mais antiga da Caima. Só de Inglaterra pesquisaram e trouxeram mais de 300 documentos.

Ao todo, encontraram mais informação do que esperavam. Informação que teve de ser analisada e validada para saber se era relevante para a investigação. No arquivo de Albergaria encontraram mais de 200 itens, com vários documentos integrados em cada item. São volumes de cartas. Só para se ter uma noção um volume, um item possui 600 cartas.

Jorge Custódio, responsável pela coordenação do trabalho de investigação da Caima, refere que estes itens “são uma percentagem mínima do que se conseguiu salvar. O resto perdeu­‑se”.

Uma situação que acabou por perturbar a ordem de trabalho, uma que vez que implicou uma maior análise e taxa de esforço. O responsável pelo projecto conta que vão escrever um livro de matriz científica. “Não é um discurso ideológico, é científico.”

Outra aspecto muito relevante deste trabalho foi dar uma dimensão humana à história. “Quem foram as pessoas, o seu papel, como se destacaram, que influência tiveram nas medidas adoptadas pela empresa e quais foram os seus resultados práticos para o negócio”, diz Sofia Costa Macedo. Um sentimento reforçado por Jorge Custódio, ao referir que este aspecto é “interessante e deu origem a mapas que vão estar na exposição e no livro, mostrando a universalidade da Caima”.

Uma mostra da universalidade da Caima foi a sua relação com o diário britânico The Daily Telegraph. Este importante jornal fundado em 1855, continua a ser um dos mais relevantes do Reino Unido e durante muito tempo utilizou papel produzido com pasta da Caima.

Jorge Custódio, Sofia Costa Macedo e Susana Pacheco, a equipa de arqueólogos industriais que analisaram a história da Caima
Jorge Custódio, Sofia Costa Macedo e Susana Pacheco, a equipa de arqueólogos industriais que analisaram a história da Caima

Mostrar o passado, o presente e o futuro da Caima

Com uma empreitada desta envergadura foi necessário criar um cronograma de trabalho e contar com a colaboração de diversos especialistas em áreas como Floresta, Ambiente, Química, Arquitectura, Património ou Engenharia Civil para abordar aspectos mais específicos da evolução da fábrica e de todas as envolventes tecnológicas e científicas associadas às melhorias introduzidas.

“Encontrámos toda a tecnologia utilizada nas fábricas. No início, nunca pensei que fosse possível recriar uma fábrica como a de Albergaria que está em ruínas e saber que máquinas existiram”, explica Susana Pacheco. Os investigadores conseguiram encontrar diversas plantas de tecnologia, com as dimensões da época e a forma como se instalavam esses equipamentos. Quem foram os construtores, os tamanhos de cada peça e as máquinas em causa. “Há um grande conhecimento e detalhe de todo o processo evolutivo da tecnologia utilizada pela Caima”, diz Susana Pacheco.

O trabalho que os investigadores estão a desenvolver é a produção de um livro que conte a história da Caima, uma exposição para levar este conhecimento às pessoas e conferências temáticas a iniciar em Outubro. Desde o início do projecto a equipa pensou na importância de tratar e disponibilizar o arquivo do material encontrado. Uma ideia que acabou por ganhar eco dentro da própria Caima, abrindo a possibilidade de “se fazer a localização do arquivo digital numa drive onde consta tudo o que investigámos”, diz Jorge Custódio. Para o responsável deste ambicioso projecto, esta situação vai permitir que uma pessoa pesquise o que quiser nesse espaço, tendo em conta que toda a informação está tratada e organizada.

O livro será uma síntese de tudo o que foi analisado. “Vamos fazer análises correctas que contribuirão para um melhor conhecimento da Caima.”

Os arqueólogos industriais vão explicar a história da empresa e dar uma visão mais aprofundada da sua importância no passado e no presente, colaborando na sua prospectiva. O trabalho mostra a evolução tecnológica da Caima e do posicionamento da empresa que produz matéria-prima para que produtos como as salsichas não fiquem sem capa ou os remédios sem invólucro. Esses e muitos outros bens são produzidos com a pasta solúvel de eucalipto produzida pela Caima. Trabalhar sobre a história ou a cultura material dos novos produtos é também um objectivo da arqueologia industrial.

É preciso que as pessoas percebam como funcionam as indústrias, que utilizam matérias­‑primas de outras indústrias, como se fazem os produtos intermédios ou finais. “É esse o nosso guião, visa integrar os trabalhadores e permitir que se reconheçam naquilo que vêem. Naquilo que sabem e naquilo que fazem.”

Constância ganha um arquivo industrial


Seja a que já fechou, que é a fábrica de Albergaria-a-Velha, na freguesia da Branca, seja a de Constância, Ribatejo. Vamos introduzir na nossa investigação algo que permite valorizar melhor os aspectos industriais materiais e não apenas aquilo que conseguimos ler. Um exemplo: com este estudo, podemos conhecer melhor Eric Daniel Bergqvist, que trabalhou na Caima e esteve na direcção muitos anos, tendo um papel inovador na sua organização e tecnologia. O conhecimento da unidade fabril beneficiará da investigação, interpretação e pesquisa documental. É mais aberto, pois envolve diversas perspectivas: a sociológica, económica (produtiva e comercial), biográfica, material, cultural e o valor que o arquivo pode ter. Por isso, estamos a aconselhar a entidade que nos solicitou este trabalho a conservar o seu próprio espólio, até de uma forma digital, e entregar a parte material a uma entidade pública que a possa preservar para o futuro.