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Revisão do Livro Vermelho dos Peixes

Este instrumento é fundamental para a definição de prioridades de conservação da biodiversidade das espécies dulciaquícolas e diádromos existentes em Portugal continental.

Um alerta para o risco de extinção de várias espécies de água doce. É assim que se pode definir uma parte do trabalho de revisão do Livro Vermelho dos Peixes Dulciaquícolas e Diádromos de Portugal Continental, que está a ser coordenado pelo investigador integrado no Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (cE3c/FCUL), João Oliveira. 

João Oliveira, investigador e professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
João Oliveira, investigador e professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

Trata-se de um projeto que se prevê esteja finalizado em abril de 2021 e que é um contributo essencial para a avaliação do estado de conservação das espécies de peixes dulciaquícolas e diádromos que constam da Diretiva Habitats. 

Para fazer um levantamento exaustivo das espécies existentes, a equipa de investigação tem de trabalhar numa área de intervenção que abrange todo o território de Portugal continental, com especial incidência em 52 sítios de importância comunitária da Rede Natura 2000 e noutras áreas do território com lacunas de informação. Falámos com o investigador e professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, João Oliveira, para saber em que fase está este importante levantamento de dados e a relação de parceira para estudar e analisar as espécies existentes nas estações de biodiversidade geridas pela Altri Florestal da ribeira dos Rouxinóis, no Furadouro, e na ribeira da Foz.

O que é o Livro Vermelho dos Peixes e quem o financia? 

O Livro Vermelho dos Peixes informa sobre o risco de extinção das várias espécies, sendo um instrumento fundamental para a definição de prioridades de conservação da biodiversidade. O projeto tem ainda uma outra componente, o desenvolvimento de uma plataforma interativa e de livre acesso webSIG com informação histórica e atual sobre os peixes que habitam os nossos rios, e é financiado pelo POSEUR e pelo Fundo Ambiental, e promovido pela FCiências.ID, em parceria com o ICNF, IP. Os trabalhos de campo para determinar a distribuição e a abundância destas espécies nos rios de Portugal continental arrancaram em fevereiro de 2019. 

Do levantamento feito até ao momento, que conclusões se podem tirar?

De momento, apenas estão analisados mais em detalhe alguns dos dados relativos às espécies migradoras. Sucintamente, podemos dizer que os rios e estuários portugueses continuam a receber a visita de peixes migradores diádromos (e.g., sável, enguia, lampreia, salmão), alguns deles ainda com uma distribuição alargada no nosso país; no entanto, as espécies mais ameaçadas, nomeadamente o salmão e a truta-marisca têm uma ocorrência muito pouco comum. 

Atividade de monitorização também conhecida como pesca elétrica
Atividade de monitorização também conhecida como pesca elétrica

Quantas pessoas participaram neste levantamento e quantas entidades estão envolvidas no projeto? 

Estão envolvidas várias instituições e dezenas de pessoas neste projeto (que inclui muitas outras ações para além destes trabalhos de campo, como estudos genéticos, desenvolvimento de uma plataforma webSIG com informação sobre as várias espécies, plano de comunicação, entre outras). 

Quais são as entidades que estão a realizar trabalhos de campo? 

Estão a ser levados a cabo por um consórcio que inclui a Universidade de Évora, a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e o Instituto Politécnico de Bragança, contando com o apoio do MARE – Centro de Ciências do Mar do Ambiente. 

Como surgiu a relação com a Altri Florestal?

Posso dizer que é daquelas interações que surgem naturalmente – trabalhando eu desde há vários anos em Ecologia Aquática e dado o crescente interesse da Altri em promover trabalhos técnico-científicos que procurem perceber melhor a influência da gestão florestal na conservação da biodiversidade, foi um passo rápido até iniciarmos uma colaboração que dura há vários anos e que tem sido muito profícua. 

O que encontraram na estação da ribeira dos Rouxinóis (Furadouro) e na ribeira da Foz?

Nos últimos levantamentos de fauna realizados nestes locais (2016-2017), encontrámos uma grande diversidade biológica. O que é assinalável se tivermos em conta o reduzido tamanho dos cursos de água. Por exemplo, no Furadouro ocorreram espécies como a enguia (ameaçada) e vários anfíbios, como a rã-de-focinho-pontiagudo (quase ameaçada) e o tritão-de-ventre-laranja. Na ribeira da Foz encontrámos sete espécies nativas de peixes, incluindo a lampreia-marinha e a boga-portuguesa. 

Tritão-de-ventre-laranja
Tritão-de-ventre-laranja

Que outros estudos realizaram? 

Para além da fauna de vertebrados ligados ao meio aquático, nomeadamente peixes e anfíbios, temos vindo a estudar os macroinvertebrados bentónicos (insetos, moluscos, etc. que vivem nos rios), e também avaliámos a qualidade física dos rios, isto é a “naturalidade” do leito e das margens. 

O que se pode dizer sobre a influência da gestão cuidada dos eucaliptais na conservação da biodiversidade?

Pode-se claramente afirmar que os rios associados a eucaliptais certificados podem apresentar boa qualidade ecológica e uma significativa biodiversidade aquática. Aliás, temos vindo a publicar os nossos resultados em revistas científicas internacionais, em que demostramos que uma gestão florestal cuidada e sustentável dos povoamentos pode promover a conservação dos rios e da sua fauna e flora. Aqui estou a falar por exemplo da manutenção da vegetação ribeirinha nativa (fundamental), do afastamento dos estradões florestais relativamente aos cursos de água, ou da não plantação de eucaliptos na zona ribeirinha. 

Vão desenvolver outras estações de biodiversidade em parceira com a Altri Florestal? 

Da nossa parte estamos completamente disponíveis para continuar esta parceira com a Altri Florestal, quer ao nível das estações de biodiversidade quer de outros trabalhos. Aliás, acho que não estou a cometer uma inconfidência se disser que já estamos a preparar as ações de campo nas estações a implementar pela Altri nos próximos tempos, e que até gostaríamos de fazer um upgrade, incluindo o estudo de outros grupos biológicos como aves ribeirinhas.